Escuridão, vento, neblina, brumas, grilos, corujas...
Uma estrada escura e o barulho das folhas secas sendo esmagadas e estilhaçadas sobre o chão de pedregulhos quando pés vacilantes e trêmulos pisam sobre elas. Uma rajada da gélida brisa passa balançando as folhas das árvores, que formam um corredor escuro. Alguns vãos em meio às copas deixam passar um luar avermelhado, a lua está meio escondida atrás de nuvens, de uma cor vacilante entre cinza, vermelho e vinho. Uma luz amarela crepitante aparece ao longe da escuridão em movimentos senoidais, num ritmo que vai aumentando como uma contagem regressiva.
O ruído dos passos pára e de repente a luz vai de encontro ao solo e se apaga. O breu toma conta, com a lua escondida, pelas copas das arvores nenhuma luz passa. Somente os uivos do vento e o farfalhar das folhas aguçam os ouvidos.
O cheiro úmido do lodo sobre as árvores e a sensação de frio aumenta bruscamente com a rajada de vento, a temperatura aparenta passar para baixo de zero e se escuta o gelo se formando em tudo ao redor. A respiração fica cada vez mais difícil e ofegante e se escuta as batidas fortes e rápidas do coração, até mesmo o sangue percorrendo as veias... Nada se vê...
Após cerca de um minuto, que mais pareceu uma eternidade melancólica e apavorante, ela sente seu cabelo sendo jogado para o lado, descobrindo seu pescoço e colo, uma pressão enorme em todo o corpo como se tivesse sido puxada pelo vestido já em frangalhos, afinal boa parte dele tinha sido deixada no meio do caminho, presa nos galhos cortantes. O frio vai chicoteando seu corpo à medida que o barulho de tecido sendo rasgado risca o ar, ela luta mas não consegue se livrar das mãos geladas e da dor pungente de dois objetos pontiagudos perfurando seu pescoço que ainda exalava o delicioso e sensual perfume adocicado misturado ao cheiro feromônico de seu corpo.
Essa dor é logo substituída por um prazer orgástico na região, com uma sucção e o calor de seu sangue encharcando a ferida, ela treme, seus músculos não obedecem, e se entrega completamente a um gozo que jamais havia sentido! Como se um raio percorresse todo seu corpo, cada terminação, não consegue respirar mas sente como se milhões de pequenas agulhas perfurassem cada milímetro do seu corpo.
Não é dor, é bom, é ótimo!
A sensação úmida e quente do orgasmo entre suas pernas, um calor intenso que parece ser formado na virilha como se uma enorme chama queimasse e desse prazer! Ao mesmo tempo em que esse mesmo calor percorre todas as suas zonas erógenas, os seios, o colo,em direção ao pescoço ferido e sugado com todo vigor...Toda a sua vida passa como um filme. Emoldurados por uma luz forte e prateada diante de seus olhos:
seus momentos de infância, os pais, natais, réveillons, primeiro beijo, primeiro amor, as sensações de prazer, alegria, tristeza e dor... Suas extremidades parecem estar congelando. As pontas dos dedos das mãos e pés, como se cada um deles estivesse sendo mergulhado separadamente em água gelada. Dedos, mãos, pés, braços, pernas até que sente todo o corpo congelado e o último calor restante vai saindo como se sugado do seu ventre e percorrendo o corpo até o pescoço ferido... Ela vê uma luz branca tão forte que não enxerga mais nada, o corpo congelado, e sente as últimas gotas de seu sangue quente saindo pela chaga aberta levando todo o calor e deixando um corpo gelado e sem vida que cai no chão de pedregulhos forrado de folhas secas. Só sente frio, as folhas pinicando seu corpo, sem dor, sem nada, apenas o formigamento causado pelo congelamento...
Um fio de pensamento passa pela sua mente: "O que será dela? Estava feliz e rindo em uma festa, quando caiu nessa estrada escura e agora, após um prazer intenso, não consegue mover nenhum músculo..."
Feliz dia das Bruxas!!